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Entrevista Luís Braga da Cruz

"O mecenato cultural está um bocado cartelizado"

16.03.2010 - 10:29 Por Sérgio C. Andrade

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Braga da Cruz diz que a fundação chegou a um momento em que deve rever a sua missão Braga da Cruz diz que a fundação chegou a um momento em que deve rever a sua missão (Fernando Veludo/NFactos)
Engenheiro de profissão, com uma passagem curta pela governação - foi ministro da Economia do 2º Governo socialista de António Guterres (1999-2002) -, e outra mais longa pela administração regional (presidiu à Comissão de Coordenação da Região Norte durante 15 anos), Luís Braga da Cruz (n. Coimbra, 1942) é o novo presidente do Conselho de Administração de Serralves. Foi uma escolha esperada - recaiu sobre alguém que já integrava a administração cessante e que tinha até feito parte do elenco que geriu Serralves logo após a constituição da fundação, em 1989.

Está praticamente ligado a Serralves desde o início. O que o fez aceitar presidir agora à administração?

Fui apontado nesse sentido pelos meus colegas de conselho. Disseram-me: "Tem que ser você". Houve uma votação e assim aconteceu. Não fiz nenhuma campanha nem manifestei nenhuma vontade. Foi uma coisa que veio ter comigo. Aliás, na minha vida, as coisas normalmente acontecem assim.

Sucede a três presidentes que tiveram em Serralves, cada um deles, um protagonismo muito particular: Teresa Gouveia, João Marques Pinto e António Gomes de Pinho...

São pessoas que respeito muito, figuras eminentes da cultura portuguesa. Todos diferentes. Marques Pinto é um homem cheio de uma energia muito voluntarista, que acredita profundamente na contemporaneidade como factor de modernização da sociedade portuguesa. Teresa Gouveia é uma grande diplomata, habilidosa, que soube reunir consensos e cativar pessoas para o projecto de Serralves, que muito lhe deve. E Gomes de Pinho foi um presidente notável, um optimista também cheio de energia; para ele, não há limites.

É uma herança pesada?

É verdade. Se me perguntar o que é que pretendo fazer de novo para deixar a minha marca, tenho alguma dificuldade em responder. Nestas circunstâncias, a prudência mandaria dizer duas coisas: em primeiro lugar, garantir a continuidade. Também é a minha forma de estar nas instituições. Não gosto de promover grandes alterações. Seria uma tontice, da minha parte, se fizesse algo sem antes compreender, sentir, falar com muita gente... E depois, sim, promover as alterações que me pareçam certas. Serralves também não é uma organização unipessoal. Tem um conselho de administração que funciona como um think tank de reflexão, que não interfere na orientação artística do director do museu, do parque, nada disso. Há autonomia absoluta em tudo o que for função criativa.

E vai manter essa marca?

Sim. Por outro lado, sinto que estamos num momento charneira, que vai certamente reclamar muita reflexão, porque os tempos estão difíceis. O mecenato cultural não é fácil em Portugal, e está um bocado cartelizado. Serralves tem beneficiado dele, mas tem a concorrência de grandes organizações, como a Casa de Música, aqui no Porto, por exemplo...

E tem a concorrência, até, do próprio Estado.

Isso é inequívoco. Como é que a gente sai dessa situação? Haverá, porventura, capacidade de apelo a outras formas de mecenato? Temos discutido isso, mas sem nunca reunirmos grande consenso. O português não tem muito esse hábito.

Reagimos melhor às tragédias e aos apelos de solidariedade...

Sim. A sociedade civil é muito solidária, em Portugal. Tudo o que seja preocupação com necessidades sociais básicas, como a luta contra a pobreza, mitigar problemas de sanidade, de doença, da infância... Agora, novas soluções para novas preocupações, nomeadamente em relação com questões ligadas à juventude, à inovação, à investigação científica ou à cultura, isso é difícil.

Que justificação encontra para essa dificuldade em angariar mecenato para a cultura?

A sociedade portuguesa está muito dependente de um Estado forte, centralizado, omnipresente, a quem se reclama tudo. Isso é uma constante. Temos de nos libertar disso, porque não é bom. O Estado tem uma função supletiva, reguladora, mas não deve estar permanentemente a tratar de tudo.

Mantém as suas convicções regionalistas?

Se se entende por regionalista alguém que entende que a coesão nacional é um valor, sou profundamente regionalista. Sou contra o centralismo esclarecido, iluminado. Sou profundamente contra a concepção do desenvolvimento do país, no âmbito social e cultural, em que há alguém que no centro é iluminado e promove o desenvolvimento do todo do território nacional por arrastamento, numa via assistencialista.

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Que colecção para Serralves?

"Mas devemos fixar-nos naquilo que são os eixos estratégicos de Serralves. O ...

perguntador

16.03.2010 20:16

X

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