Sarkozy ao anoitecer
21.02.2012 - 22:55 Por Dominique Moïsi
E o próximo presidente francês será... o candidato François Hollande do Partido Socialista. Há um mês, qualquer previsão proferida com tanta certeza soaria imprudente, se não tola. A incerteza prevaleceu. Quatro candidatos dominaram a competição e ninguém ousaria prever quais os dois que passariam à segunda volta. De facto, a corrida parecia mais aberta do que nunca na história recente.
De repente, algo aconteceu – não um evento em si (embora isso começasse com o primeiro grande comício público de Hollande, em meados de Janeiro), mas algo que se pode assemelhar a um processo irresistível que pode ser resumido da seguinte forma: a maioria dos franceses quer punir um presidente que tinha caído das suas graças.
Eles podiam não ousar fazê-lo se não tivessem encontrado uma alternativa razoavelmente credível. Hollande, ao surgir mais sonante e determinado do que a maioria dos eleitores franceses julgava ser, deu voz (e rosto) a um desejo comum de rejeitar o titular, Nicolas Sarkozy.
Isso não quer dizer que Hollande seja carismático. Pelo contrário, permanecem dúvidas persistentes sobre a sua seriedade, já para não mencionar as sérias preocupações acerca do realismo ou da sabedoria do seu programa. Mas, ao contrário da sua antiga companheira, Ségolène Royal, que desafiou Sarkozy para a presidência em 2007, ele parece e soa a “genuíno”.
A partir de agora, a campanha parece estar transformada numa luta clássica entre a esquerda e a direita, mas com uma grande diferença nas estratégias dos dois candidatos principais. Hollande quer converter a eleição presidencial num referendo sobre Sarkozy, que, dada a sua impopularidade, procura enquadrar a batalha em termos de valores e de experiência.
Na verdade, a essência da mensagem na campanha de Sarkozy tornou-se em: “Podem não gostar de mim pessoalmente (estariam errados, já agora, porque eu não sou como vocês me vêem e a minha experiência no poder transformou-me profundamente), mas apoiam os meus valores conservadores uma vez que eles representam aquilo que realmente pensam. Num mundo que está a mudar tão rapidamente e tão brutalmente, vocês precisam de estabilidade e de segurança. Eu posso dar-vos isso”.
Ao enfatizar a divisão ideológica entre ele e Hollande, Sarkozy também está a ser levado a atrair, mais abertamente do que nunca, o eleitorado de extrema-direita do partido Frente Nacional de Marine Le Pen, como se ele sentisse que ela poderá não encontrar assinaturas suficientes para se qualificar a um lugar nas eleições. Esta estratégia pode fazer sentido na primeira volta, mas, ao atrair eleitores da extrema-direita na primeira volta, Sarkozy poderia perder o apoio dos eleitores centristas na corrida. Eles poderiam estar dispostos a votar na “experiência”, mas não num “conservador cristão” que se desvia dos valores humanistas.
Em todo o caso, pode-se argumentar que os franceses estão a ser injustos com o seu Presidente. Sarkozy teve de enfrentar circunstâncias excepcionalmente difíceis e o seu currículo está longe de ser insatisfatório. No início do seu mandato, França estava à frente da União Europeia e ele provou ser um líder habilidoso. Compreendendo a gravidade da crise económica que eclodiu em 2008, Sarkozy reagiu rapidamente e com uma energia considerável. Também lançou uma reforma fundamental e há muito tempo aguardada no sistema de pensões e no ensino superior. Ele fez as escolhas certas na intervenção na Côte d'Ivoire [Costa do Marfim] e na Líbia.
Podia-se facilmente acrescentar mais exemplos desses. Em resumo, Sarkozy tentou sinceramente reformar um país profundamente paralisado. E ele não pode responsabilizado pela elevada taxa de desemprego, dada a extensão da crise mundial.
Ainda assim, salvo um milagre de última hora – um erro crucial de Hollande que destrua a sua credibilidade, ou um novo período de crise que alimente o desejo dos eleitores em garantir a continuidade no topo – Sarkozy parece condenado a ser o segundo Presidente de um mandato na história da Quinta República, a seguir a Valéry Giscard d'Estaing.
Em 1981, Giscard foi derrotado devido, em grande parte, à “traição” do seu antigo primeiro-ministro, Jacques Chirac, que corria contra ele. Em 2012, ninguém do campo de Sarkozy está a trair o Presidente (aqueles que estão a tentar, como o antigo primeiro-ministro Dominique de Villepin, não têm recebido qualquer apoio). É o próprio Sarkozy que traiu as esperanças dos seus partidários e consolidou a hostilidade dos seus adversários.Sarkozy fê-lo principalmente no início da sua presidência e corre o risco de ser punido por isso em 2012. Ele mudou para melhor, mas só até certo ponto e, claramente, não o suficiente para a maioria dos franceses, que, de acordo com as recentes sondagens à opinião pública, simplesmente não suporta a ideia de tê-lo no seu ecrã de televisão por mais cinco anos.
É claro que, como o antigo primeiro-ministro britânico Harold Wilson costumava dizer, “uma semana é muito tempo na política” e Sarkozy só se tornará oficialmente um candidato esta semana*. Ainda vai ser extremamente difícil para ele, se não impossível, impedir que as próximas eleições se tornem num referendo emocional e negativo sobre a sua pessoa.
* Texto escrito antes de Nicolas Sarkozy apresentar a sua candidatura presidencial, a 15 de Fevereiro.
Tradução de Deolinda Esteves/Project Syndicate


